Abelardo era o típico cara da grande cidade de Vondópolis, descolado, sempre tirando fotos com os amigos para postar na internet e nas redes sociais. Popular, conhecido por todos, ostentava o carro dos sonhos de muitos, a casa desejada por tantos outros e um saldo bancário gordo, confortável. Um retrato perfeito do sucesso, o sonho de qualquer pessoa.
Abel, vindo do interior, também vivia em Vondópolis, mas em um mundo completamente diferente. Trabalhava das sete da manhã às sete da noite para sustentar a esposa e os três filhos, fazia bicos sempre que apareciam para tentar viver com um mínimo de dignidade e, ainda assim, mal conseguia sobreviver com um salário de 500 Vondos por mês. O gasto básico com água, luz, alimentação e moradia girava em torno de 3000 Vondos, uma conta que nunca fechava, por mais que ele se esforçasse.
Abelardo, sempre ansioso para ver sua fortuna crescer ainda mais, não desgrudava da internet. Publicava vídeos e textos ensinando como qualquer pessoa poderia alcançar o sucesso que ele dizia ter conquistado. Bilionário desde o berço, falava com segurança e pose de exemplo: “Meus amigos, muitos me perguntam o que eu fiz para ser rico com apenas 28 anos. É simples, trabalhe muito e se esforce. Assim você muda de vida como eu. Já trabalhei como garçom, bartender em um bar famoso aqui de Vondópolis, e vi minha vida se transformar quando, com fruto do meu árduo trabalho, o dinheiro começou a aparecer. Se você se esforçar e trabalhar mais, eu garanto que terá a vida que sempre sonhou. Reclamar não adianta, é preciso fazer por merecer. Meu pai, por exemplo, é dono da boutique da cidade, também se esforçou muito, e nossa família colhe os frutos até hoje. Então pare de ser preguiçoso e vá trabalhar.”
Abel, por mais que desejasse a vida que Abelardo ostentava, não via retorno algum. Quanto mais trabalhava, menos tinha. Acordava antes do sol nascer, mantinha dois empregos e, mesmo assim, no fim do mês, as contas nunca batiam.
Abelardo fingia não entender essa realidade, embora soubesse muito bem como as coisas funcionavam. Dono de participações em praticamente todas as empresas da cidade, ele sabia que quanto mais os outros trabalhavam, mais lucrava na divisão dos ganhos. Enquanto isso, vendia na internet fórmulas milagrosas de enriquecimento e faturava milhões de Vondos com discursos vazios.
E não, ele não ensinava como ser um cara de pau, isso ele já dominava. Abelardo lucrava duas vezes com o sofrimento alheio, explorava o trabalho e vendia ilusões, e, no fundo, isso o satisfazia.