Sr. Papelão e os Cabeças de Papel

Em uma cidade conhecida como Cabeças de Papel, todos viviam em uma linda harmonia. A rotina era sempre a mesma, acordar cedo, malhar, tomar banho, tomar café, enfrentar o trânsito interminável de casa até o prédio principal conhecido como o Predião, chegar atrasado, sofrer o diabo durante o expediente e depois encarar mais duas horas de engarrafamento na volta.

Em casa, ligavam a televisão, assistiam ao jornal e acreditavam estar bem informados. Ninguém falava do cansaço diário, da exaustão do trabalho e do trânsito, não havia sequer a ideia de uma vida melhor.

Todos eram dominados pelo Sr. Papelão, que repetia incansavelmente que suas vidas eram maravilhosas, que não havia motivo para melhorias, que o sistema funcionava perfeitamente e que não existia razão para diminuir ou acabar com aquela rotina sufocante.

Os que ousavam querer mudar o sistema não eram nem de papelão nem do Predião. Eram chamados de Cabeças de Ferro. Para os demais, eram apenas os esquisitos, os burros, os idiotas.

As Cabeças de Ferro sonhavam com uma cidade melhor, com mais oportunidades e menos opressão, mas as Cabeças de Papel não escutavam e muito menos aceitavam questionar suas próprias certezas. Era menos doloroso silenciar as Cabeças de Ferro do que encarar a necessidade de mudar, do que admitir que suas ideias talvez estivessem erradas.

Nesse caos silencioso, quem realmente se beneficiava eram os donos do Predião e o Sr. Papelão, nunca os moradores da cidade.

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